Diversos pensadores têm apontado como uma das caracterÃsticas mais prepon-derantes das práticas artÃsticas da pós-modernidade – ou do pós-modernismo – a tendência para uma certa recusa dos pressupostos de originalidade, de criação individual e de propriedade autoral que em grande medida estiveram subjacentes ao processo histórico de construção da Modernidade, sobretudo a partir do Romantismo e de seu programa literário, conforme indicado, entre tantos autores, por M. H. Abrams em The Mirror and the Lamp: Romantic Theory and the Critical Tradition, cuja hipótese geral assinala a passagem de uma teoria mimética da representação enquanto espelho reflector de acções, para, no Romantismo, uma teoria expressiva da arte: da arte como exercÃcio da fantasia do sujeito.
Em certa medida, à narrativa reconstituÃda por Abrams à entrada da segunda metade do século XX poderia dar-se uma continuidade fundada num novo elemento simbólico, a tela ou ecrã, quer considerando a sua significação propriamente interartÃstica (a que subjazem as relações exogâmicas da literatura com os domÃnios das artes visuais, em particular com o tão modernista cinema), quer admitindo o seu valor sociocultural de dispositivo, responsável pelo agenciamento de vários tipos de lógicas hipertextuais e hipermediais, tão em voga na contemporaneidade. Quer dizer que, nesta perspectiva, o ecrã/ a tela poderão ser entrevistos como os grandes protagonistas daquele cultural turn que Fredric Jameson diagnosticou como definidor da emergência da pós-modernidade, ao mesmo tempo que representam a passagem de uma concepção do acto artÃstico assente no poder demiúrgico do próprio criador – “pequeño diosâ€, na inesquecÃvel sÃntese de Vicente Huidobro – para uma concepção que visa evidenciar a força inexorável dos próprios meios e dos suportes materiais da expressão.
O distanciamento face a alguns dos pressupostos mais elementares e constitutivos da Modernidade tem sido assim transversal a vários campos artÃsticos e pode ser constatado e identificado em diferentes modalidades de gestos apropriatórios, alguns deles já claramente presentes na alta modernidade e em certas vanguardas artÃsticas, de Lautréamont a Apollinaire, passando por Braque e Picasso: num gesto anti-expressivo de pendor pós-romântico, T. S. Eliot apontou, por exemplo, para uma poesia que seria, ao mesmo tempo, “escape from emotion†e “escape from personalityâ€, tomada por um imperativo moral do trabalho, do trabalho artÃstico, com uma dimensão também comunitária. A descrição de Eliot caberia na perfeição a obras como a de Oswald de Andrade, na qual, de acordo com a epigramática sÃntese de Décio Pignatari, poderÃamos reconhecer uma poesia ready-made, uma poesia da posse contra a propriedade.
Historicamente, nas últimas décadas, estas manifestações de posse – da colagem à intertextualidade ou ao sampling, passando pelo pastiche ou pela paródia – têm-se intensificado e tido consequências decisivas para a própria esfera da arte, e/ou para a separação entre o artÃstico e o não-artÃstico, o literário e o não-literário, conforme exem-plarmente assinalou ainda Jameson nos seus ensaios de referência dedicados ao assunto. Trata-se, sem dúvida, de um aprofundamento cada vez mais problematizante, autorrefle-xivo e frequentemente irónico de práticas muito diversificadas, que na nossa actualidade se têm apresentado como uma demonstração de resistência ao avassalador presentismo, graças ao exercÃcio de uma arte da memória muito especial, que o conceito de arquivo também poderá ajudar a esclarecer.
No domÃnio poético especÃfico que nos interessa, o estudo de Marjorie Perloff publicado em 2010, Unoriginal Genius: Poetry by Other Means in the New Century, possi-bilitou uma visão sistemática destas questões em termos histórico-literários, fornecendo um conjunto de elementos que nos permitem observar a força do fenómeno nas propostas das últimas décadas à luz de um projecto como o do livro das Passagens de Walter Benjamin, passando pelo concretismo brasileiro, na direcção dos mais recentes exercÃcios provo-catórios do norte-americano Kenneth Goldsmith. A proposta de Perloff encerra um (aparente) paradoxo que importa discutir, uma vez que o conceito de génio sobre o qual assentou todo o projecto filosófico e artÃstico moderno desde os grandes textos de Estética do século XVIII, ao pressupor o papel fulcral que a natureza (physis) desempenha na formação do criador – de acordo com a célebre fórmula de Kant segundo a qual o génio seria a natureza dando regra à arte –, dificilmente pode admitir uma vinculação à intencional falta de originalidade, dado que esta pressupõe sempre algum tipo de trabalho (techné).
É intuito deste número da revista eLyra promover a discussão teórico-crÃtica deste complexo e instigante processo histórico, a partir da leitura de obras poéticas especÃficas, nas quais sejam identificáveis procedimentos intertextuais, interartÃsticos e intermediais que possam enquadrar-se no âmbito de uma tal reflexão. Neste sentido, serão privilegiadas propostas que incidam sobre conceitos ou aspectos históricos/teórico-crÃticos articulados em torno da noção de génio não original, além de propostas que trabalhem sobre obras poéticas em particular e que se articulem na relação entre a poesia e outras artes/outros media e/ou o discurso interartÃstico/intermedial da própria poesia.
Org.: Joana Matos Frias, Pablo Simpson, Sofia de Sousa Silva
Os artigos, inéditos e formatados de acordo com as normas da revista, deverão ser enviados para o email revistaelyra@gmail.com, até 28 de Março de 2020.
janeiro 13, 2020
